eu, furo.

Não tapo os meus furos
Não disfarço os meus tropeços
Não pinto os meus cabelos
Sobretudo, não tapo os meus furos.

A vida quer porque quer botar algodão no meu nariz
Costurar os meus orifícios
Esticar minha pele pra tapar os meus poros
Mas eu não tapo os meus furos!

Passo fio dental todos os dias
E eu só choro pra checar se os buraquinhos dos meus olhos ainda funcionam
Eu só gosto de papo furado e pra mim o filme perfeito não existe
Eu gosto é de achar furo no roteiro.

Quando eu era criança
Eu queria ser a Bela Adormecida
Só pra furar o meu dedo no fuso de uma roca de fiar.

Veja, eu não posso tapar os furos
Se eu sou oco, é pra que tudo passe e nada acumule
Eu sou vazado é que é pra não dar dengue.

Eu não sou um buraco, portanto não posso ser tapado
Eu sou um furo
E eu não perdi nada e nada me foi amputado
É que eu sou assim mesmo, furado.

© 2026, Anttonio Anderson. Publicado com permissão.